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Burkina FasoTransformando o patrimônio natural em educação

 Uma paisagem de tirar o fôlego composta por um platô rodeado de falésias e por torres de pedras de 400 metros esculpidas pelo vento que escondem lugares sagrados, ruínas e vestígios arqueológicos dos seus primeiros habitantes e segredos geográficos e místicos que costuram a história e as lendas locais. A complexidade rochosa, que se estende até o Mali, variando entre cadeias de montanhas e falésias, escolheu ostentar um de seus pedaços mais formosos no sudoeste de Burkina Faso, formando ali o Parque Nacional dos Picos de Sindou. Com seu cenário deslumbrante de picos arenosos e escadas naturais que conectam as bases aos cumes, o parque se caracteriza como uma das principais atrações visuais do país.

 

 

Sindou, além das montanhas, abriga nos seus arredores uma comunidade de aproximadamente oito mil habitantes, todos da cultura Senofou. Vindos da região do Vale do Rio Níger no século XIV fugindo dos conflitos e guerras étnicas que assolavam a região do Mali, instalaram-se e se esconderam no platô circundado e resguardado pelas grandes montanhas. Daí o nome Sindou, que na língua local significa “vilarejo protegido”. Com o fim do perigo, abandonaram as falésias e se instalaram nas bases dos morros, onde o acesso à água e às plantações era mais fácil. A história dividiu o povoado em dois grupos: os nobres, aqueles que construíram o vilarejo nos picos e seus descendentes, e os sub-nobres, os que chegaram depois, ao longo dos últimos 700 anos, mas foram agregados pela comunidade.

 

 

Hoje, 90% da população da cidade sobrevive da agricultura familiar sendo o arroz a principal cultura agrícola. A vila, no entanto, situada em uma região rica de patrimônios turísticos, naturais e culturais encontrou uma segunda fonte de renda, o turismo solidário, fruto do trabalho da associação Djiguiya. Em 2004, o fundador da iniciativa, perito da história local e da cultura Senoufo, Tiémoko Ouattara, encontrou uma maneira de aproveitar toda a potencialidade da região e reverter os lucros para a comunidade local, com foco, sobretudo, na escolarização das crianças. Criando uma cooperativa de turismo responsável, ele desenvolveu uma ampla rede de atividades que beneficia tantos os moradores quanto os visitantes.

 

 

“Burkina Faso não é um destino para turismo de luxo. Não temos praias ou grandes resorts. As pessoas que vêm visitar o país estão em busca de uma experiência cultural, social e solidária. Pensando nesse link, criamos a associação Djiguiya. Enquanto o turista pode conhecer a fundo a vida local, a comunidade redescobre a importância e o valor de sua cultura, que por seus encantos, atrai pessoas de outros continentes que viajam apenas para conhecê-la. É uma troca mútua. Afinal quem fala de turismo solidário, fala em compartilhar”, explica Tiémoko ao mesmo tempo em que corrige a lição de casa de duas crianças do Centro de Acolhimento, uma das principais atividades desenvolvidas pela associação, e que assinala uma grande conquista da iniciativa.

 

 

Em Burkina Faso, a escolarização pública não é 100% gratuita. A taxa anual é de 100 reais para o ensino primário e 180 reais para o ensino secundário, fora o material, o uniforme e os gastos de transporte envolvidos. A soma acaba saindo caro para grande parte da população, sobretudo a que sobrevive da agricultura familiar. Para tentar solucionar parte do problema e para evitar o abandono precoce dos estudos, a equipe de Djiguiya decidiu focalizar suas ações na educação.

 

 

Desenvolvendo campanhas de sensibilização na região, os membros da associação realizaram encontros comunitários para lembrar aos participantes a importância para a sociedade de uma criança frequentar a escola, enfatizando as vantagens diretas e indiretas que a escolarização traz para uma comunidade. Também realizaram enquetes com a população local, tentando entender as razões, além das financeiras, que uma criança não frequenta a escola. Com bases nas respostas do diagnóstico, desenvolveram um complexo sistema de apoio. O resultado? Conseguiram escolarizar 92% das crianças da região.

 

 

Para começar, instalaram sistema de água potável, bibliotecas e salas de informática nas escolas da região. Depois, criaram campanhas para incentivar os pais que poderiam financiar o ano escolar a matricular os filhos nas escolas. O terceiro passo foi realizado com 82 crianças com menores condições financeiras, para quem ofereceram o apoio material básico, pagando os custos das taxas anuais e gastos com saúde, roupas e alimentação. E por fim, criaram o Centro de Acolhimento, para crianças sem nenhum ou quase nenhum recurso financeiro e para crianças refugiadas do Mali e da Costa do Marfim. Hoje, o centro abriga 40 alunos, oferecendo além do apoio básico, albergue e acompanhamento escolar diário.

 

 

Nos finais de semana, as crianças voltam para a casa, uma prioridade do esquema de apoio, que enfatiza também a importância da educação familiar. Por fim, a associação segue o desempenho escolar de todas as crianças envolvidas, oferecendo tutores, professores e estagiários no período extraescolar. Tiémoko conta que o segundo grande foco é a saúde. “Educação e saúde são intrínsecas. Uma pessoa doente não pode estudar. Uma pessoa que tem gastos com saúde, pode não ter dinheiro para a educação”, explica o diretor da associação, que priorizando o combate à malária distribuiu mosquiteiros por toda a região e realizou campanhas de sensibilização sobre os meios de prevenção, além de construir 50 latrinas no vilarejo e criar programas de gerenciamento de lixo na cidade.

 

 

Fora os frutos do turismo solidário, a iniciativa, para arrecadar fundos, também criou um sistema de patrocínio escolar. Foi aberto um comitê de assistência social, que possibilita que pessoas com maiores rendas financeiras, sejam famílias locais, turistas ou estrangeiros, patrocinem a educação do ano escolar de uma criança, colaborando com a quantia de 35 reais por mês. No entanto, uma pessoa interessada em ajudar, deve preencher um termo de engajamento, que certifica o apoio integral completando o ano letivo. Isso porque abandonar o patrocínio no meio acaba sendo ainda mais prejudicial para a criança, que tem o processo de educação rompido. “É preciso ter certeza do compromisso. O termo serve para certificar que o apoio vá até o fim, criando frutos para os dois lados”, completa o diretor, que explica que cada patrocinador recebe quatro vezes por ano novidades sobre a associação e o desempenho escolar da criança.

 

 

Ao lado do Centro de Acolho, a equipe da Djiguiya construiu o albergue Soutrala, que reverte todo o lucro para o trabalho da associação. É ali também que são organizadas as atividades de turismo solidário. As opções contam com circuitos de um a seis dias pela região dos picos, que podem ser feitos a pé ou de bicicleta. E para regiões mais distantes de moto ou de carro. Desde um café da manhã no cume de um dos picos para observar o sol nascer até várias noites de acampamento e trekking pela região, o passeio é sempre focalizado no aspecto cultural. Os guias vão abrindo caminho entre as falésias, explicando o valor de cada planta e a história por traz de cada canto do platô, contando detalhes da vida local e da estrutura social da cultura Senofou.

 

 

Fora os passeios ecológicos, são organizadas noites de balafon, saídas educativas com as crianças, danças de máscaras, noites de contos senoufo e outras muitas atividades artísticas. Ainda, é possível passar a estadia em família, morando com membros da população local. As atividades de turismo solidário também abrem espaço para intercâmbios de capital social: o visitante pode ter aulas de artesanato ou de instrumentos musicais como o djembe e a kora, em troca de aulas de inglês, matemática, finanças ou o que puder oferecer. Por fim, a associação conta com programas de voluntariado, recebendo no vilarejo interessados do mundo todo. A combinação entre cenário deslumbrante, turismo solidário e educação é explosiva. O País Senofou, abrindo as portas e valorizando seu patrimônio cultural e natural, garante com sucesso o futuro de suas crianças. Um exemplo que traz ao turismo um brilho ainda mais forte.

 

 

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