Proteção Extrema Contra a Dor e o Sofrimento, 2011, grafite e aquarela sobre papel, 42,5×32,5 cm (Foto: Divulgação)
Para compreender um pouco sobre a inserção da mulher negra na arte brasileira, uma análise sobre a obra da artista Rosana Paulino se faz necessária. Paulistana da Freguesia do Ó, é artista plástica com especialização em gravura pela London Print Studio, em Londres e doutora em Artes Plásticas pela ECA/USP. Já participou de diversas exposições no Brasil, assim como nos EUA, Chile, Bélgica, Holanda, Portugal e Espanha.
Rosana Paulino (Foto: Celso Andrade)
Em seus trabalhos, é transpassado um campo expandido dentro das artes visuais, desenvolvendo obras que permeiam ora entre escultura-objeto, ora escrita-gravura, fotografia-pintura e instalação-perfomance, inserindo nessas linguagens artísticas o cotidiano e objetos habituais a partir da sua própria condição.
Soldado, 2006, terracota, tecido e materiais diversos, 36x15x9,5 cm (Foto: Divulgação)
Na produção de outros significantes no intuito de gerar certa diferença da mulher dentro do terreno das artes, Paulino trabalha com as imagens de mulheres negras e mestiças, discutindo a construção das subjetividades atravessada pelas condições de trabalho, pelas relações de poder e pelo preconceito racial.
Parede de Memória, 1994. Rosana Paulino. Serigrafia em almofadas, 8 x 8 x 3 cm (Foto: Divulgação)
Assim, o universo negro e feminino aparece como temática central em suas obras, onde o lugar da mulher negra dentro da sociedade brasileira é colocado em pauta levantando questões sobre os estereótipos dos quais são submetidas, que vão desde as pressões para se adequarem aos padrões de beleza que pregam cabelo liso e a brancura, até a imagem sexualizada e erotizada da mulher negra, atributos historicamente impostos.
Desenho da Série Ama de Leite, 2005, acrílica e grafite sobre papel, 32,5×25 cm (Foto: Divulgação)
Explorando também a condição sócio-histórica do Brasil, Paulino questiona a formação do país a partir de sua própria raiz, de sua herança. Utiliza elementos biográficos como fotos pessoais, linhas, agulhas, tecidos e objetos habituais projetando imagens que criticam a desigualdade social que persiste por séculos, exposto sempre de modo silencioso pelas pessoas e principalmente pela mídia.
Assentamento, 2013 (Foto: Divulgação)
Olhos e bocas aparecem costurados grosseiramente como símbolo da violência às mulheres, o segredo guardado dentro do universo doméstico: os olhos que não podem ver, a boca que não falar, gritar. Assim, através da costura que esteve presente em sua vida desde cedo por ter aprendido a costurar com a mãe, a artista faz da trama um elemento questionador e ao mesmo tempo criador de novos sentidos, remetendo muitas vezes a violência e a opressão, como no trabalho Bastidores, 1997.
É Tão Fácil Ser Feliz, 1995, imagem transferida e matriz de acetato sobre papel, 62×45 cm (Foto: Divulgação)
Na fala da própria artista, “Utilizar-me de objetos do domínio quase exclusivo das mulheres. Utilizar-me de tecidos e linhas. Linhas que modificam o sentido, costurando novos significados, transformando um objeto banal, ridículo, alterando-o, tornando-o um elemento de violência, de repressão. O fio que torce, puxa, modifica o formato do rosto, produzindo bocas que não gritam, dando nós na garganta. Olhos costurados, fechados para o mundo e, principalmente, para sua condição de mundo.”
Ama de Leite n. 1, 2005, terracota, plástico e tecido, 32×17,5×8,2 cm (Foto: Divulgação)
Na instalação intitulada Ama-de-leite, 2008, a costura também surge no papel estruturantes dessas mulheres negras nos séculos passados, fazendo um paralelo entre submissão e afeto desenvolvido entre os bebês e as amas, entrelaçando sentimentos de submissão, dor e cuidado, onde havia um significante abuso físico e econômico.
Série Bastidores, 1997, imagem transferida sobre tecido, bastidor e linha de costura, 30cm (Foto: Divulgação)
A autorrepresentação do seu corpo, suas memórias e experiências foi um meio que Paulino encontrou para abordar a dor de corpos carregados de traumas, expressando-se através da arte na tentativa de ressignificar e construir sua identidade e a relação com a liberdade.
Sem Título/Série as Três Graças, 1998, monotipia e colagem sobre papel, 75,5×57 cm (Foto: Divulgação)
“Olhar no espelho e me localizar em um mundo que muitas vezes se mostra preconceituoso e hostil é um desafio diário. Aceitar as regras impostas por um padrão de beleza ou de comportamento que traz preconceito, velado ou não, ou discutir esses padrões, eis a questão”, arremata Rosana Paulino.