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Brasil / África

O Teatro Experimental do Negro de Abdias do Nascimento
por Mariana Moreira

 

Teatro Experimental do Negro (Foto: Divulgação)

 

 

O cenário era o Teatro Municipal de Lima, no Peru, em 1941. Abdias do Nascimento viajava com seu grupo artístico Santa Hermandad Orquídea criado onze anos antes com seus amigos poetas. Em cena, um ator peruano dava vida ao Imperador Jones, personagem-título da obra de Eugene O’Neill.  A peça era mais uma dentre tantas programações culturais que o grupo desfrutava em sua viagem pela América do Sul, mas um detalhe da apresentação chamou a atenção: o personagem da história, que era negro, era interpretado por um ator pintado de preto.

 

 

Esta realidade não era muito diferente na dramaturgia brasileira, onde os autores escreviam para um teatro de público predominantemente branco. Aos atores negros, restavam os papéis brejeiros, caricatos e muitas vezes com conotação pejorativa. Abdias entendia que isso se tratava de reflexos de uma sociedade que insistia em negar sua face racista. E foi com a vontade de fazer um teatro que protagonizasse a figura do negro que ele criou, em 1944, o Teatro Experimental do Negro (TEN).

 

 

 

Teatro Experimental do Negro (Foto: Divulgação)

 

 

Antes, Abdias já havia desenvolvido o Teatro do Sentenciado, em que trabalhava com penitenciários dramaturgia e escrita. Uma iniciativa que lhe trouxe experência e sabedoria empírica para o novo empreendimeto. O TEN reuniu pessoas que não tinham contato anterior com as artes cênicas. A primeira turma chegou a juntar 600 alunos, a maior parte deles vindos da classe baixa e sem escolaridade. Assim, além das leituras de textos e dos ensaios, o grupo deu aulas de alfabetização e de cultura geral. Abdias enxergava nesse contexto uma oportunidade de fazer a população afro-brasileira enxergar a discriminação que sofria e encontrar seu lugar dentro da cultura afro-brasileira como protagonista.

 

 

Além da ação artística, o Teatro Experimental do Negro também atuou nas frentes sociais. Como defesa da mulher negra, criaram a Associação das Empregadas Domésticas e o Conselho Nacional de Mulheres Negras.  Constantemente inferiorizadas, estas mulheres receberam pela primeira vez a chance de questionar as condições de trabalho que lhes eram impostas. Nas palavras de Abdias: “Teve muita “madame” que se aborreceu (…) nós estávamos botando minhocas nas cabeças de suas empregadas”. Era o empoderamento de uma classe que, historicamente, sempre teve seu protagonismo escanteado.

 

 

 

Teatro Experimental do Negro (Foto: Divulgação)

 

 

O TEN também promovia concursos como o “Boneca de Pixe” e “Rainha das Mulatas”, que favoreciam a beleza negra. As candidatas eram selecionadas por meio de critérios como a criatividade, conhecimentos gerais e postura ética. O TEN promoveu, ainda, a Semana do Negro e o concurso de artes plásticas sob o tema Cristo Negro. Neste último, organizado pelo sociólogo Guerreiro Ramos junto a Abdias, foram promovidos terapias em grupo de modo a tratar os efeitos psicológicos do racismo em suas vítimas.

 

 

O grupo teatral de Abdias do Nascimento afirmava negros e negras dentro de uma sociedade cujo racismo historicamente enraizado era disfarçado pela bandeira da “democracia racial”. Fortemente ativo, Abdias do Nascimento defendia a valorização da cultura negra como meio de combate à discriminação racial. O TEN fazia o negro enxergar a exploração pela qual passava e lhe dava autoconfiança para conquistar seu espaço social. O propósito era criar uma dramaturgia de autoria negra, que focasse em temas da cultura afro-brasileira e discutisse questões que, até então, ninguém dava a devida atenção.

 

 

 

A estreia da companhia nos palcos viria em maio de 1945 com a peça O Imperador Jones, no Theatro Municipal do Rio. O texto, concedido pelo próprio O’Neill a Abdias, foi protagonizado pelo ator Aguinaldo Camargo. Sua atuação rendeu a ele e à companhia elogios da crítica, que subestimaram a qualidade do TEN. Infelizmente, a companhia não pode encenar a peça outras vezes porque o Theatro só fora concedido por uma única noite.

 

 

No entanto, após o sucesso de sua primeira empreitada, o grupo seguiu seus trabalhos e adaptou outras peças de O’Neill, como Todos os filhos de Deus têm asas, O moleque sonhador e Onde está marcada a cruz. A partir de 1947, o TEN passou a receber textos escritos especialmente para companhia. O primeiro foi O Filho Pródigo, de Lúcio Cardoso. No elenco, estava nomes como Aguinaldo Camargo, Ruth de Souza, José Maria Monteiro, Abdias do Nascimento, Haroldo Costa e Roney da Silva. A peça foi considerada a maior estreia teatral do ano.

 

 

 

Abdias do Nascimento (Foto: Divulgação)

 

 

 

Uma característica comum aos textos trabalhados pelo grupo teatral era a mistura de elementos da cultura negra à narrativa. O objetivo por trás disso era trazer para o primeiro plano a história do negro e de suas manifestações artísticas, dando-lhes visibilidade.  Um exemplo desse cuidado está em Aruanda, de Joaquim Ribeiro, que foi encenada pelo TEN em 1949. Nela, dança, canto e poesia se fundiam para contar a história de uma mulher mestiça e da convivência dos deuses afro-brasileiros com os mortais. Outro exemplo é Filhos de Santo, de José Morais de Pinheiro, que mistura misticismo e candomblé para narrar a saga de trabalhadores do Recife que eram perseguidos pela polícia.

 

 

O próprio Abdias do Nascimento também escrevia peças para companhia. Um de seus trabalhos de maior destaque foi Sortilégio, cujo texto foi fortemente censurado até sua estreia em 1957 no Rio e em São Paulo. O roteiro centra sua história em um triângulo amoroso entre um homem negro e duas mulheres, sendo uma branca e uma negra. A partir disso, a narrativa trabalha com a situação marginal desse protagonista, que se encontra distante tanto da cultura africana quanto da europeia e vai criar consciência sobre sua identidade enquanto negro através desse choque de realidade. O sucesso da peça fez com que Abdias viajasse à Nigéria para encenar o espetáculo em Ile-Ife. Além de Sortilégio, ele ainda produziu Rapsódia Negra, em 1952.

 

 

Teatrólogo, escritor, artista plástico e poeta, Abdias somou ao seu currículo a política, profissão que exerceu com dedicação em favor da luta pela igualdade racial. Com o TEN, não foi diferente. A companhia afirmou-se como um mecanismo de militância da causa negra. Através da revista Quilombo, eles denunciavam casos de discriminação e apoiava organizações afro-brasileiras em todo o país. Nas seções do jornal, publicava entrevistas e divulgava atividades dos movimentos negros, além de incentivar o lançamento de candidatos negros para compor as cadeiras do Congresso e defendessem propostas que beneficiassem a população negra.

 

 

 

Teatro Experimental do Negro (Foto: Divulgação)

 

 

Entre 1945 e 1946, o grupo fortaleceu ainda mais suas ações políticas e ajudou na organização da Convenção Nacional no Negro, que encaminhou à Constituinte de 1946 a proposta que definia o racismo como crime de lesa-pátria, além de demandar políticas de igualdade racial, como bolsa de estudo e incentivos fiscais. Intitulado Manifesto à Nação Brasileira, o documento enviado pelo senador Hamilton Nogueira foi anulado pela Assembleia Constituinte sob a alegação de que não existiam provas de discriminação racial no país.

 

 

Para provar o contrário, o TEN passou a denunciar diversas ocorrências de racismo o que, mais tarde, daria na criação da Lei Afonso Arinos, que institucionalizou a discriminação racial como um crime. Apesar da conquista, a legislação ficou muito aquém do esperado. Uma batalha estava ganha, mas ainda havia o que reivindicar. Por isso, o Teatro Experimental do Negro organizou, em 1950, o I Congresso do Negro Brasileiro. No encontro, intelectuais negros reforçaram a necessidade de defender políticas de igualdade racial. Em 1966, o grupo lançou uma Declaração de Princípios em que se posicionou contra o colonialismo e reivindicava o mesmo posicionamento do governo federal.

 

 

O Teatro Experimental do Negro interrompeu suas atividades em 1961, quando Abdias teve se exilar por causa da ditadura militar. No entanto, a luta continuou viva nas palavras de seu grande criador. Abdias do Nascimento registrou os passos do TEN e da luta negra em várias publicações de sua autoria. Por exemplo, ele lançou em 1961 a antologia Dramas para negros e prólogo para brancos, que …. . Anos depois, ele publicou Teatro Experimental do Negro – Testemunhos, O negro revoltado e Relações raciais no Brasil. Foi perseguido durante a repressão militar e adentrou na política depois do voltar do exílio e foi deputado federal entre 1983 a 1987, além de senador de 1997 a 1999. Em 2006, esteve entre os responsáveis pela implantação do feriado da Consciência Negra. Foi um homem à frente de seu tempo, que lutou até a morte por uma população historicamente desassistida. Faleceu em 2011 aos 97 anos, mas deixou um legado na história do movimento negro.