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SenegalA difusão da música africana
no mundo

Um país de forte tradição musical, um festival com décadas de existência e um público que mune os artistas da energia necessária. Africa Fête é uma combinação explosiva que traz do Senegal e dos países vizinhos o melhor da composição contemporânea e os clássicos que marcaram época e definiram o percurso da musicalidade local. O festival, que começou em 1978 com o movimento político de trabalhadores africanos na França, acompanhou e alimentou nos últimos 30 anos o desenvolvimento da música do continente e sua difusão pelo mundo.

 

 

Mamadou Konté foi o olho do furacão. Imigrou para França em 1965 e após perceber as condições dos trabalhadores africanos, vinculou-se aos militantes de esquerda do movimento de Maio de 68 e liderou inúmeras greves pelo reconhecimento cultural e pela melhoria da qualidade de vida dos imigrantes. Sua principal – e infalível – tática foi empregar como arma a música. Criou uma associação para ajudar os artistas e criadores africanos e organizou em 1978, em Marseille, um festival musical para difundir a música negra, que reuniu em uma única praça mais de 10 mil pessoas e inúmeros artistas famosos engajados na causa. Nascia assim o primeiro Africa Fête.

 

 

Com sua visão humanista e pan-africanista e com a proposta de viver a integração e a diversidade através da música, Konté foi um dos responsáveis pela entrada da música africana na indústria fonográfica mundial. De Marseille, o festival espalhou-se para a América do Norte e passou a realizar anualmente turnês musicais nos dois continentes, promovendo para o mundo os mais originais artistas da África. Oumou Sangaré, Papa Wemba, Femi Kuti, Youssou Ndour são apenas alguns nomes da imensa lista que a cada ano contagiou centenas de milhares de pessoas.

 

 

Considerado um embaixador da música africana no mundo, em 1994, Konté sonhou mais alto e conseguiu trazer o festival para o seu berço cultural, transferindo para o Senegal o título de sede oficial do evento. Se antes seu objetivo era promover a música como ponto de conexão cultural, seu anseio passou a ser provar que a música está ativamente ligada no desenvolvimento econômico dos países africanos. Ao trazer o festival para o Senegal, sua missão passou a ser gerar empregos, promover a cultura e fomentar a constituição de uma indústria musical no país e no continente.

 

 

Hoje, seis anos depois da morte de Mamadou, suas ideias e ideais continuam sendo o alicerce formador do festival, que chega a sua 13ª edição no continente. Com a proposta de promover a música como luta cultural e como modelo de desenvolvimento da economia africana, o Africa Fête expandiu tornando-se itinerante e viajando pela primeira vez este ano por diferentes regiões do Senegal e diversas capitais do oeste do continente. A cada ano, o evento explora com êxito a dinâmica cena musical da região, consagrando os clássicos e descobrindo os novos artistas em todos os seus ritmos.

 

 

Se em uma perspectiva mais ampla o festival foi fundamental para difusão da música africana contemporânea no mundo, no Senegal o evento foi responsável por traçar o percurso musical do país nas últimas três décadas. Foi no mesmo período do nascimento do Africa Fête que o ritmo nacional começou a crescer, o mbalax. Fruto da mistura da música da diáspora, sobretudo cubana, e do compasso tradicional senegalês, o estilo até hoje ocupa o principal espaço do menu musical do país. A retroalimentação é marcante. A música do caribe com raízes no continente africano, centenas de anos depois passa a alimentar a própria fonte, formando um interessante e rico ciclo musical.

 

 

O resultado é uma música popular urbana composta pela fusão de ritmos latinos, jazz, soul e o sabar, clássica percussão senegalesa. As letras são cantadas em wolof, língua franca do país e a performance ao tocar tambores no palco tem um toque de referência aos tradicionais griots. “O mbalax é nosso ritmo fundamental básico, sendo para o Senegal o que o samba é para o Brasil. É o ritmo tipicamente senegalês, que fala para o nosso sangue”, pontua o produtor musical senegalês Jean Pierre Senghor, que viveu 25 anos no Brasil e tocou com músicos de alto calibre como Marisa Monte, Gilberto Gil e Cidade Negra.

 

 

Para não ter dúvidas da originalidade do ritmo, contextualizando sua importância, ele lembra do cantor que explodiu na cena musical mundial na década de 80: “O grande nome do ritmo é Youssou Ndour, ele é como se fosse o Bob Marley do mbalax, foi ele com seu estilo enraizado, quem popularizou o ritmo internacionalmente”. Engajado e pioneiro na arte de arranjos, ele influenciou e continua influenciando toda uma geração de músicos no país. Youssou Ndour, ícone da música no Senegal, é um exemplo de um dos grandes nomes que o Africa Fête espalhou pelos quatro cantos do mundo.

 

 

O festival é considerado um trampolim musical. Ter a chance de presenciar seus concertos é conhecer de perto o presente e o futuro dos trends musicais africanos. Neste ano, entre os que marcaram presença no evento estava Souleymane Faye, considerado o melhor compositor senegalês da atualidade. De letras filosóficas e humor impecável, é respeitado de norte a sul no país e lotou a plateia durante a sua apresentação. Foi destaque também a contagiante cantora da Costa do Marfim Dobet Gnahoré. Além da potência da voz, ela encanta pelo talento na dança e na percussão. O seu show para o Africa Fête pareceu enfeitiçar o público que interagiu do começo ao fim.

 

 

Como de praxe do festival, com o objetivo de promover as novas gerações do ramo, foram muitos os nomes lançados.
Entre os convidados, o destaque foi Dooba, descoberto enquanto cantava na sua universidade, com o seu violão e voz intrigante, ele forma a nova cara da balada pop senegalesa moderna. Na categoria ritmo para tirar o pé do chão, o vencedor foi Pape Diouf. Mal subiu ao palco, o público, que assistia os concertos anteriores do dia sentado, levantou e começou a dançar. E foi assim até a última canção, com direito a fãs que arriscavam subir no palco para remexer ao som da música! O segredo do sucesso para eletrizar o público? O ritmo: Mbalax. Não há alma senegalesa que consiga ficar parada.

 

 

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