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MoçambiqueDa velha guarda ao
contemporâneo

A história do ritmo que virou referência da identidade moçambicana é cheia de possíveis leituras. A origem, os instrumentos, os passos e até mesmo o nome ganham diferentes versões no país e não há uma mais verdadeira que a outra. A Marrabenta é um pouco de todas. A Marrabenta é por si só a foz de diferentes culturas. É uma dança que traduz muitos em outros múltiplos. E por isso, defender uma só verdade seria impossível. Marrabenta é uma verdade plural, assim como sua história, que começa quando Maputo era ainda Lourenço Marques, em meados do começo do século XX.

 

 

Na época, caracterizada por um forte fluxo de imigração urbana, milhares de habitantes das zonas rurais passaram a habitar a periferia da cidade, criando novos bairros. Os aglomerados populacionais eram centros de recepção de diferentes culturas, que por sua vez contavam com sua própria língua, tradições e ritmos. Nas noites de festas, sobretudo dos bairros de Mafalala e Chamanculo, as culturas, dialogando entre si, começaram a mesclar compassos e miscigenar batuques. Dessa mistura, surgiu um ritmo de música e dança, que foi ganhando cada vez mais força. Com suas novas propriedades estéticas, a febre da marrabenta se espalhou pela cidade.

 

 

As mãos pendulavam de lado em lado, ora tocando os ombros, os joelhos ou a cabeça. Movimentos acentuados da cintura, pés criando um círculo imaginário no solo, jogo sensual de pernas e um requebrado pélvico terminavam de dar cara à dança, acompanhada pelo som dos materiais improvisados da festa. Madeira, latas e fios de pescas se transformavam em instrumentos. A guitarra arranjada de quatro cordas era quem guiava a música, que cantava temas da vida cotidiana, contos de casamento, momentos históricos moçambicanos e, de quando em quando, críticas sociais ao sistema colonial, sendo em determinados momentos considerada subversiva pelo então governo português.

 

 

Elarne da Silva, Madalena Tajú e Alfredo Caliane foram todos integrantes de um dos grupos de dança mais famosos da Velha Guarda da Marrabenta, o Conjunto João Domingos. São eles alguns dos responsáveis por dar forma ao ritmo, levando o estilo dos quintais para dentro dos salões. Elarne explica que em sua época a dança, sempre realizada com os pés descalçados, era aos pares e os movimentos seguiam os mesmos tanto para os homens quanto para as mulheres, que bailavam vestindo capulanas curtas, tops e lenços na cabeça. Sua irmã Madalena Tajú conta ainda que o nome marrabenta veio da junção da prefixação ‘ma’ com ‘rebentar’, palavra do vernáculo local para o movimento requebrado da dança, que desmontava o corpo em vários. “Dançava-se até se arrebentar”, conta rindo a ex-bailarina que aceita arriscar uns passinhos para mostrar como era a ‘verdadeira marrabenta’.

 

 

Do outro lado da cidade de Maputo, na Escola Laulane, o grupo de dança Nhembete, formado por dezenas de adolescentes do bairro, ensaia a reinvenção do estilo. Ali, a marrabenta ganha passos acelerados compassados pela animação de atabaques, bumbos e timbilas, ao invés da viola. O canto é anterior à dança e acontece somente para dar ritmo ao espetáculo. As meninas viram as protagonistas, se desfazem os pares e a performance passa a ser em grupo. O pé descalço permanece, mas as capulanas se transformam em saias curtas rodadas para dar mais movimento ao agito das ancas, que giram em torno de um centro imaginário durante toda a apresentação. Para os jovens, que fazem música com o corpo, o nome do estilo não veio da dança, mas sim do arrebentar das cordas frágeis das violas, que quebravam com facilidade.

 

 

A cada conversa, uma nova versão, uma nova história surge sobre o estilo, que segue em contínua e constante evolução rítmica. Versões não se consagram uma sobre as outras, mas se completam. A Velha Guarda só faz sentido com a nova, que, por sua vez, só existe pelas influências hereditárias da primeira. Tradicionalmente conhecida como uma dança do sul do país, a marrabenta, em todas as suas formas, espelha uma identidade nacional. Tornou-se única sendo múltipla. Uma dança que foge em forma e conceito de tudo que é estático. A Marrabenta é o legado moçambicano que lembra o mundo que a cultura é dinâmica e tem o poder de transformar-se em si mesma.

 

 

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